As assinaturas eletrônicas realizadas por meio da plataforma gov.br em procurações de ações judiciais devem ser aceitas, assim como as assinaturas digitais qualificadas. A medida foi aprovada por unanimidade durante a 17ª Sessão Ordinária de 2026 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A decisão voltou-se para a garantia de segurança na identificação das partes, da regularidade da representação processual e do acesso à Justiça.
30.10.2026
Conselheira Noemia Porto, na 17ª Sessão Ordinária de 2026 do CNJ. Foto: Gustavo Moreno/CNJ
Relatora dos processos administrativos que tratavam sobre o uso de assinatura digital no Processo Judicial Eletrônico (PJe), conselheira Noemia Porto afirmou que o acesso à Justiça não deve ser restringido por exigências tecnológicas que não tenham fundamento legal ou técnico suficientes.
A partir das orientações do relatório técnico do Departamento de Tecnologia da Informação (DTI/CNJ), a relatora votou por aceitar a assinatura eletrônica pela plataforma gov.br uma vez que isso não significa atribuir autenticidade absoluta a todo documento, mas reconhecer que o mecanismo deve ser considerado na análise de admissibilidade. “Não se está afirmando que todas as modalidades de assinatura eletrônica sejam equivalentes e nem se afastam as garantias próprias da assinatura qualificada. Mas a ausência de um certificado específico, por si só, não se constitui em argumento para recusa genérica de procuração ou documento. É preciso verificar se há meios confiáveis de identificação e validação”, disse.
As assinaturas qualificadas são vinculadas à Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil), sistema oficial do governo federal para emissão de certificados digitais com validade jurídica, equivalente à assinatura de próprio punho.
Com a decisão do CNJ, também serão aceitas, em procurações judiciais, as assinaturas de nível prata e ouro da plataforma gov.br, que devem ser acompanhadas de relatório de conformidade emitido pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI). Esse reconhecimento também apresenta elevado grau de confiabilidade e identificação.
De acordo com o CNJ, fica expressamente preservada a competência de os magistrados determinarem verificações adicionais, caso acreditem ser necessário. “Assinaturas eletrônicas avançadas não afastam o poder-dever do juiz responsável de verificar o aceite da assinatura eletrônica qualificada. Mas isso não reduz o poder de controle do magistrado de verificar a regularidade da representação processual”, ressaltou Noemia Porto.
Além disso, o Plenário determinou que seja reconhecida a admissibilidade das procurações manuscritas digitalizadas, sem imposição automática de reconhecimento de firma ou de assinatura eletrônica qualificada.
O CNJ também irá atualizar a resolução que instituiu o sistema PJe para prever a nova forma de certificação. O objetivo é trazer “uniformidade administrativa para esses parâmetros e gerar segurança jurídica para os que propõem suas ações, sem interferir no exame jurisdicional de cada processo”, como explicou Noemia Porto.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-30 09:12:452026-10-30 09:12:45Procurações processuais podem ser assinadas pela plataforma gov.br
Entenda as novas regras para 2027 que envolvem suas movimentações bancárias
29.10.2026
Quem recebe pagamentos por Pix por meio de atividades profissionais poderá ter novas obrigações tributárias a partir de 2027. A mudança está relacionada à Reforma Tributária, que prevê a criação de uma categoria chamada nanoempreendedor, destinada a trabalhadores autônomos com faturamento reduzido. No entanto, isso não significa que todas as pessoas que recebem transferências bancárias precisarão abrir um CNPJ.
Pelas regras originais, o limite anual do nanoempreendedor era de R$ 40.500, equivalente a uma média de R$ 3.375 por mês. Essa categoria permite que trabalhadores que atendam aos critérios legais permaneçam como pessoas físicas, sem recolher os novos tributos sobre o consumo, o IBS e a CBS, nem precisar de CNPJ para essa finalidade. É importante destacar que o cálculo considera os rendimentos da atividade econômica, e não toda a movimentação bancária.
Transferências entre contas próprias, empréstimos e doações, por exemplo, não são automaticamente considerados faturamento profissional. Motoristas e entregadores que trabalham por meio de aplicativos possuem uma regra específica: apenas 25% do valor bruto recebido é considerado para o cálculo da receita. Assim, quem recebe R$ 10 mil por mês tem R$ 2.500 contabilizados para essa finalidade.
Quem ultrapassar o limite deverá avaliar as regras tributárias aplicáveis à sua atividade. A inscrição no CNPJ não é uma exigência automática para toda pessoa física que recebe pagamentos, embora determinadas atividades possam exigir identificação fiscal e emissão de documentos. Outra possibilidade é a formalização como microempreendedor individual (MEI), desde que a atividade e os demais requisitos sejam compatíveis.
Nesse regime, o trabalhador recolhe mensalmente o Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS) e pode ter acesso a benefícios previdenciários, desde que cumpra as condições exigidas. As regras para 2027 ainda precisam ser consideradas com cuidado, já que mudanças recentes elevaram o limite anual de faturamento do MEI para R$ 110 mil, o que pode impactar as regras de enquadramento dos nanoempreendedores.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-29 11:24:182026-10-29 11:24:18Se você recebe pagamento por PIX na sua conta pessoal, a partir de 2027 você pode ter que abrir um CNPJ. Entenda
Após vitória de Lula, mercado cobra corte nas despesas do Estado
29/10/2026 –
Antonio Cruz/Agência Brasil
A trajetória da dívida pública brasileira, que saiu de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para cerca de 82,9% do PIB em agosto de 2026, vem sendo apontada pelo mercado financeiro e por economistas considerados “liberais” ou “ortodoxos” como o “maior problema” do próximo governo que colocaria em risco a economia brasileira. Para esta ala, reduzir gastos é o principal caminho para manter o equilíbrio fiscal.
De outro lado, há economistas de outras correntes de pensamento, consideradas “heterodoxas” ou “desenvolvimentistas”, que apontam essa proposta do mercado financeiro como prejudicial à população por tirar recursos de áreas fundamentais, como saúde, educação, previdência e assistência social.
Para esses especialistas, são os juros altos praticados pelo Banco Central (BC) o principal problema econômico do país que pressiona a dívida pública. Já o BC tem condicionado a redução dos juros a realização de superávits primários pela União, que é quando as receitas superam as despesas, excluindo os gastos da dívida.
A revista Forbes, especializada em finanças com sede nos Estados Unidos (EUA), publicou artigo sugerindo um corte de até R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida pública brasileira, usando como base estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado.
Durante a campanha presidencial, a promessa de corte de magnitude menor, de R$ 250 bilhões, foi atribuído ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) a partir de revelações da imprensa. A proposta foi atacada pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que acusou Flávio de preparar um “tesouraço” nos benefícios sociais.
Consultados pela Agência Brasil, economistas rejeitaram a tese dominante veiculada na imprensa de que a trajetória da dívida brasileira deve ser combatida com corte de gastos primários, ou seja, aqueles usados para prestação dos serviços públicos.
Calote e inflação
A professora do Instituto de Economia da Unicamp Simone Deos afirma que não há risco de calote da dívida ou de aumento da inflação, como alertam os economistas liberais, em função do aumento do endividamento bruto nos últimos anos.
“Isso não tem maiores consequências porque a dívida pública é em reais, não em moeda estrangeira. A história não mostra nenhum país que não tenha conseguido pagar a sua dívida interna, em moeda nacional, por falta de recursos. Haveria risco se a dívida fosse em dólares”, diz.
O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues afirmou à Agência Brasil que a dívida ainda não preocupa como os economistas liberais têm alertado.
“A dívida enquanto proporção do PIB não é uma preocupação prioritária. A dívida está dentro dos parâmetros internacionais considerando a complexidade do Brasil e o peso da dívida interna. São níveis aceitáveis ainda, mesmo com o crescimento dos últimos anos”, afirma.
O doutor em teoria econômica critica ainda a comparação, comum no noticiário econômico, do Estado brasileiro com uma família ao argumentar que o governo não poder gastar mais do que arrecada.
“Nós não estamos falando de uma dona de casa, nem de uma dona de padaria. Estamos falando de um país com capacidade de arrecadação, de alongar o seu endividamento e de conseguir receitas das suas estatais”, explicou Fernando.
Comparação internacional
A pesquisadora Simone Deos, que atua no Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI) da Unicamp, acrescenta que muitos países têm nível de dívida superior ou similar ao Brasil.
Japão (236% do PIB), Estados Unidos (120% do PIB), Reino Unido (101% do PIB), Itália (135%), Índia (81,2%) e Canadá (110% do PIB) são países que registram dívidas públicas maiores ou semelhantes à do Brasil, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024.
Para Simone, o problema do aumento da dívida é porque uma parcela maior do orçamento público fica comprometido com pagamento de juros para os mais ricos.
“O que está causando essa trajetória de aumento é o pagamento de juros. E o problema dela é que uma parcela cada vez maior do PIB está sendo transferida para rentistas [pessoas ou empresas que obtém renda por meio de aplicações financeiras]”, acrescenta.
Juros pressionam dívida
A taxa de juros real no Brasil de 8,45%, a maior do mundo segundo levantamento da consultoria Moneyou, é o principal fator para o crescimento da dívida pública, segundo dados do Banco Central (BC).
Nos últimos 12 meses, o Brasil gastou R$1,1 trilhão em juros, o que representa 8,86% do PIB, calcula o BC. Ao longo de 2026, o principal fator para o crescimento de 4,2 pontos percentuais (p.p) da dívida/PIB foram os juros nominais.
Fernando Henrique Lemos critica a comparação entre os gastos públicos e os gastos das famílias- Fernando Henrique Lemos/Arquivo Pessoal
O professor Fernando Henrique argumenta que a pressão por redução dos gastos públicos no Brasil é uma “chantagem” do mercado financeiro com objetivo de manter os juros elevados. Isso porque o BC tem condicionado a redução dos juros aos superávits primários.
Segundo o professor, como o governo não pode fazer o ajuste fiscal que o mercado pede sem reduzir os direitos sociais da população, a pressão por cortes funciona para justificar a manutenção das altas taxas de juros.
“O mercado sabe que o governo não vai cortar. Existe um conluio para manter a taxa de juros alta. Um fundo de aplicação financeira tem cerca de 90% da rentabilidade vindo da dívida pública”, explicou Rodrigues.
O professor da UFRRJ argumenta que o Brasil está com a inflação “bastante controlada”, havendo espaço para uma redução maior da taxa de juros.
“Acontece que o BC brasileiro é refém, sobretudo, das instituições financeiras de maior poder de fogo, grandes bancos e grandes corretoras, que é o pessoal da Faria Lima”, explicou.
Outro motivo apontado para reduzir os juros no Brasil é o fato de os juros serem baixos nos países desenvolvidos, o que cria uma pressão do mercado financeiro para manter os juros altos em países como Brasil, México, Rússia, Turquia e Indonésia.
O Banco Central justifica os juros elevados, entre outros motivos, às pressões inflacionárias e aos déficits fiscais primários nas contas públicas. Segundo a autoridade monetária, os gastos primários acima da arrecadação pressionam a inflação.
Alternativa ao ajuste fiscal
A professora da Unicamp Simone Deos pondera, por outro lado, que é válido um debate sobre a eficiência e a qualidade dos gastos públicos, mas defende que mudanças não podem prejudicar políticas sociais.
A pesquisadora do CIRE argumenta que a doutrina econômica adotada pelo BC não tem funcionado para o Brasil. “Tem que mudar a cartilha do BC para ele agir de outra forma”.
Segundo a especialista, é possível reduzir os juros no Brasil e, com isso, equilibrar a dívida pública de forma coordenada e planejada por meio da intervenção no mercado de câmbio, um dos principais fatores de inflação no Brasil. Para isso, o BC teria que fazer uso dos US$ 350 bilhões de reservas em dólar.
“Uma redução dos juros é mais do que suficiente para a dívida estabilizar. Para isso, precisa de uma ação coordenada com a questão cambial do BC. No mais, a gente tem que discutir qualidade do gasto”, comentou.
O professor da UFRRJ Fernando Henrique Rodrigues, por sua vez, defende que o Estado precisa fortalecer seu orçamento social e de investimentos em estatais para perseguir algum desenvolvimento econômico.
“Se um gasto público, num primeiro momento, tem um impacto que se diria negativo sobre as contas públicas, em um segundo momento, ele gera renda, emprego e novos investimentos. Isso volta na forma de arrecadação”, comentou.
*Por Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil
A Autorização Eletrônica de Viagem (AEV), instituída pelo Provimento nº 38/21 da Corregedoria Geral da Justiça, pode ser emitida para crianças e adolescentes até 16 anos para viagens nacionais e internacionais de jovens desacompanhados de um de seus pais ou de ambos, a ser emitida, exclusivamente, por intermédio do Sistema de Atos Notariais Eletrônicos – e-Notariado.
O documento eletrônico é facultativo, permanecendo válidas as autorizações de viagens emitidas em meio físico, e só pode ser usada nos casos em que a autorização judicial é dispensável. São eles: em viagens nacionais, quando crianças e adolescentes de até 16 anos incompletos estiverem acompanhados de pessoa maior de idade que não seja pai, mãe, responsável ou ascendente/colateral maior, até o terceiro grau; quando se tratar de deslocamento para comarca contígua à residência dentro da mesma unidade federativa ou incluída na mesma região metropolitana; ou quando a criança ou o jovem possuir passaporte onde conste expressa autorização para viagem desacompanhada ao exterior.
Para viagens internacionais, a autorização eletrônica pode ser apresentada quando crianças ou adolescentes menores de 18 anos forem viajar acompanhados de apenas um dos pais ou responsáveis, ou se forem viajar acompanhados de outros adultos ou sozinhos.
Para a assinatura do documento eletrônico, é imprescindível a realização de videoconferência para confirmação da identidade dos responsáveis, a utilização da assinatura digital notarizada pelas partes e a assinatura do Tabelião de Notas com o uso do certificado digital.
A AEV não substitui os casos em que é exigida autorização judicial, como quando a criança ou adolescente nascido em território nacional viajar para o exterior em companhia de estrangeiro residente ou domiciliado no exterior, mesmo se houver autorização de ambos os pais, ou quando um dos pais está impossibilitado de dar a autorização, por razões como viagem, doença, paradeiro ignorado ou discordância entre os genitores.
Fique ligado – As regras para autorização de viagens para menores, tanto em âmbito nacional quanto internacional, não sofreram alteração. No Portal do TJSP há uma página dedicada exclusivamente às informações referentes à autorização de viagem de crianças e adolescentes.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-29 10:28:422026-10-29 10:28:42Autorização eletrônica de viagem para crianças e adolescentes
A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob o rito dos recursos repetitivos (Tema 1.391), fixou a tese de que “os débitos condominiais, mesmo anteriores ao pedido de recuperação judicial, são créditos extraconcursais, não se submetendo ao juízo da recuperação judicial, podendo ser executados no juízo cível competente”.
27/10/2026
Com a fixação da tese, os processos que estavam suspensos em razão da controvérsia poderão voltar a tramitar, devendo o entendimento firmado ser observado por todos os tribunais do país no julgamento de casos semelhantes, conforme determina o artigo 927, inciso III, do Código de Processo Civil (CPC).
Em seu voto, o ministro Raul Araújo, que abriu a divergência vencedora, destacou que a classificação dos débitos condominiais como créditos extraconcursais representa a solução mais adequada ao grave problema social que seria para as comunidades condominiais caso esses valores fossem submetidos ao plano de recuperação judicial.
Relator do repetitivo, ministro Raul Araújo.
De acordo com o ministro, o funcionamento do condomínio depende do pagamento das despesas comuns, rateadas entre condôminos e proprietários das unidades, em geral pessoas de renda média, com capacidade financeira limitada. Para ele, não seria razoável transferir aos demais o ônus de suportar, por longo período, os débitos de uma empresa submetida à recuperação judicial.
Vínculo da dívida com o imóvel justifica tratamento extraconcursal
O relator ressaltou que a obrigação de pagar as despesas condominiais está diretamente ligada ao imóvel e acompanha a propriedade (propter rem), como disposto no artigo 1.345 do Código Civil (CC). Segundo ele, essa característica, associada à proteção do direito de propriedade prevista no artigo 49, parágrafo 3º, da Lei 11.101/2005, faz com que o crédito condominial tenha tratamento diferente das obrigações comerciais da empresa em recuperação, ficando fora dos efeitos da recuperação judicial e da falência.
Desse modo, o ministro enfatizou que “sua execução não será suspensa pelo deferimento do processamento da recuperação e não se sujeita ao plano de recuperação judicial”.
Raul Araújo observou ainda que, justamente por estarem vinculadas ao imóvel, as despesas condominiais podem ser consideradas necessárias à administração do patrimônio da empresa, conforme o artigo 84, inciso III, da Lei 11.101/2005. Esse enquadramento, salientou, reforça a conclusão de que se trata de crédito extraconcursal, independentemente do momento de sua constituição.
“Não obstante o mencionado art. 84 seja referente ao processo falimentar, é plenamente possível sua aplicação, por analogia, também aos casos de recuperação judicial, em se tratando de despesas condominiais, tendo em vista estas integrarem o conceito de ‘despesas necessárias à administração do ativo'”, acrescentou o relator.
Critério temporal não se aplica aos débitos anteriores ao pedido de recuperação
Ao tratar dos débitos condominiais vencidos antes do pedido de recuperação judicial, o ministro ratificou que não incide, nesses casos, o critério temporal previsto no artigo 49, caput, da Lei 11.101/2005. O ministro apontou que o critério citado no dispositivo não afasta a natureza extraconcursal dos débitos condominiais.
Por fim, o colegiado estabeleceu que esses créditos podem ser executados no juízo cível competente, mesmo durante o processo de recuperação judicial. Caberá ao juízo da recuperação apenas o controle de atos de constrição sobre bens indispensáveis à continuidade da empresa, o que poderá, eventualmente, levar à suspensão da execução.
Concebido para evitar punições por condutas que não geram dano relevante para a sociedade, o princípio da insignificância é rejeitado pelo Judiciário na grande maioria dos casos de furto simples. Discutida em centenas de julgamentos a cada mês, essa tese esbarra na falta de parâmetros objetivos e enfrenta resistência dos magistrados.
STJ negou insignificância em 79% dos casos julgados; TJ-SP, em 94% deles
Conforme levantamento feito pela revista eletrônica Consultor Jurídico, o Superior Tribunal de Justiça avaliou a aplicação do princípio da insignificância em 19 acórdãos públicos sobre furto simples (não qualificado) no último mês de setembro e afastou a tese em 15 deles (78,9%). Já o Tribunal de Justiça de São Paulo — corte com o maior volume processual do país — negou a insignificância em 124 dos 132 casos (93,9%) julgados no mesmo período.
O princípio não é previsto em lei e não existem precedentes qualificados dos tribunais superiores que detalhem os critérios para a insignificância. O mais próximo de um paradigma é uma decisão de 2004 em um Habeas Corpus no qual o Supremo Tribunal Federal estabeleceu quatro requisitos não muito específicos: a conduta precisa ser minimamente ofensiva, não pode causar perigo social, deve ser muito pouco reprovável e o dano provocado há de ser inexpressivo.
Na prática, isso deixa ampla margem para a interpretação dos magistrados. Assim, nos casos de furto verificados pela ConJur, o princípio da insignificância acaba afastado principalmente devido à reiteração criminosa dos réus, ao valor dos bens furtados e ao entendimento de que a aplicação dessa tese incentivaria a prática de delitos.
“Existe uma certa resistência do Poder Judiciário ao princípio da insignificância”, afirma Rafael Fagundes, sócio do escritório Nilo Batista & Advogados Associados, mestre em Direito Penal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor do livro A Insignificância no Direito Penal Brasileiro. Segundo ele, embora existam casos não insignificantes nos quais as defesas pedem a aplicação do princípio, isso não corresponde à maior parte das decisões que rejeitam essa tese.
A criminalista Camila Ribeiro Hernandes, sócia do escritório Vieira Advocacia Criminal que analisou a aplicação do princípio da insignificância pelos tribunais em sua tese de doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), também vê uma grande resistência, não só do Judiciário, mas também do Ministério Público. Muitos casos chegam às cortes por recurso do MP.
Na sua visão, esse cenário é fruto da falta de parâmetros seguros, concretos e minimamente objetivos para a aplicação desse princípio. Isso impede até mesmo uma avaliação precisa sobre a pertinência dos pedidos das defesas.
Fagundes compartilha dessa opinião, especialmente quanto aos casos de furto. “Existe muito arbítrio, muito decisionismo e muita discricionariedade na aplicação da insignificância”, aponta. “Quando o magistrado quer aplicar a insignificância, ele aplica. Quando ele não quer aplicar, usa qualquer fundamento que possa encontrar.”
Interpretação restritiva
A 11ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP, por exemplo, negou a aplicação do princípio da insignificância no caso de um homem que furtou 800 gramas de carne charque, avaliados em R$ 49,99, em um mercado. Ele ocultou o produto em sua roupa e saiu do estabelecimento sem pagar, mas foi abordado por policiais em um bar próximo e admitiu a prática do delito. O colegiado destacou os antecedentes criminais do réu, que acabou condenado à prestação de serviços comunitários e ao pagamento de um salário mínimo.
Em outro caso no qual a insignificância foi negada, um homem tentou furtar um frasco de óleo de soja de uma mercearia, mas foi abordado pela proprietária e fugiu do local. Na sequência, furtou uma peça de queijo parmesão de uma loja de laticínios, mas foi pego por policiais militares logo em seguida. Somados, os produtos valiam R$ 38,43 e foram todos restituídos aos estabelecimentos.
Apesar da absolvição em primeira instância, a 6ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP entendeu que o valor não era “irrisório”, “insignificante”, “desprezível” ou “inservível”. Por isso, determinou o retorno dos autos à origem para que a ação penal prosseguisse regularmente.
Já a 14ª Câmara de Direito Criminal da corte afastou o princípio da insignificância no caso de um homem que furtou duas caixas e quatro barras de chocolate, com valor total de R$ 61,94, de uma loja de conveniência. Uma empregada do estabelecimento identificou o crime pelas câmeras de segurança e acionou a PM, que localizou o réu em patrulhamento pela região. Ele não só admitiu o furto como contou ter consumido parte dos chocolates e trocado o restante por pedras de crack. As unidades restantes foram restituídas à loja.
O desembargador Bittencourt Rodrigues, relator do caso, reconheceu que o valor dos produtos era baixo e que o delito ocorreu sem violência ou ameaça. Mas ele destacou o contexto de “reiteração delitiva, voltada à obtenção de recursos para o sustento da dependência química” — o homem tinha condenações definitivas anteriores por delitos patrimoniais.
Para o magistrado, o Direito Penal não pode “converter-se em salvo-conduto para a criminalidade habitual de pequena monta”. A pena aplicada foi de um ano e quatro meses de prisão em regime semiaberto, além do pagamento de uma multa de pouco mais de R$ 650.
O histórico de condenações por furto e outros crimes patrimoniais também foi usado para afastar a insignificância no caso de um homem que furtou um pacote de lenços umedecidos e um kit de xampu e condicionador de uma loja de cosméticos. Perseguido por policiais que estavam por perto, ele dispensou os produtos no chão. Após ser detido, confessou o crime, disse que estava em situação de rua e argumentou que o furto foi o único meio que encontrou de parar com o uso de drogas.
Após destacar a reincidência, o juiz convocado Antonio Maria Patiño Zorz, relator da ação na 14ª Câmara, reconheceu o pequeno valor dos produtos (R$ 39,70), mas afirmou que “qualquer prejuízo, sempre suportado pelas vítimas, que cumprem seu dever social, trabalham e se esforçam para prosperar, é indesejável”. A pena foi de um ano e quatro meses de prisão em regime fechado, mais 12 dias-multa.
Em outro caso, para se afastar a insignificância, bastou que a mulher fosse conhecida pela prática de furtos em outros estabelecimentos e tivesse feito acordo de não persecução penal (ANPP) em outros autos. Ela havia furtado quatro maços de cigarro (R$ 54), admitido o crime aos PMs e relatado que fazia tratamento psiquiátrico por conta de sua conduta.
A 15ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP impôs a pena de multa de aproximadamente R$ 500. “Retirar qualquer consequência penal de fatos como estes apenas criaria um estímulo à prática de ações semelhantes, o que não se pode admitir”, disse o desembargador Diniz Fernando, relator do processo.
Histórico pesa
A reiteração delitiva do réu — ou seja, a existência de algum histórico criminal — é o que acaba prevalecendo na maioria dos casos. Trata-se do argumento dominante nos acórdãos que negam a insignificância.
“A jurisprudência dos tribunais superiores tem entendido que a reiteração criminosa afasta a insignificância, salvo em situações excepcionais nas quais é recomendável socialmente sua aplicação”, explica o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP).
Mas Rafael Fagundes argumenta que “a reiteração criminosa não é um fator importante para o exame da insignificância”. Isso porque a insignificância é baseada na lesividade da conduta e na adequação do fato à legislação penal. Já a reiteração nada tem a ver com isso.
Em outras palavras, mesmo que a pessoa tenha cometido delitos antes, a conduta mais recente não deixa de ser insignificante para fins penais. “Se a conduta é atípica, não importa quem a praticou, nem por que a praticou, nem quantas vezes praticou”, completa. Na sua visão, quando os tribunais levam em conta a reincidência e os maus antecedentes dos réus, as pessoas passam a ser julgadas pelo que são, e não pelo que fizeram no caso concreto.
Camila Hernandes concorda que a reiteração é um critério usado de forma exacerbada, embora não tenha relação com a insignificância. A discussão adequada, para ela, é se a conduta lesiona de maneira significativa o patrimônio da vítima. E o histórico do réu não muda em nada o grau dessa lesão. “O furto de um desodorante não se torna uma conduta que afeta o patrimônio da vítima só porque antes, em relação a outro caso, aquela pessoa teria praticado alguma outra conduta criminal.”
O problema é agravado pela forma como os tribunais tratam os antecedentes. Segundo a advogada, para afastar a insignificância, os magistrados consideram qualquer registro criminal anterior, inclusive ações penais ainda em curso e inquéritos policiais.
Parâmetro numérico
Outro fundamento bastante usado é o valor do bem furtado. O parâmetro geralmente adotado pela jurisprudência é o teto de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos.
Mas esse critério não é absoluto. Hernandes explica que, quando os magistrados não querem aplicar a insignificância, a tese é negada por outros argumentos, mesmo se o valor for inferior a 10% do salário mínimo. Da mesma forma, em parte dos poucos casos nos quais há a disposição de aplicar o princípio, esse limite acaba sendo desconsiderado.
Fagundes vê os 10% como um parâmetro razoável. “Se esse critério fosse aplicado, haveria um avanço tremendo no tratamento da insignificância nos tribunais”, opina. “Mas os magistrados aplicam uma série de outros julgamentos morais e de cunho personalíssimo, que não cabem na definição de uma conduta como típica ou não.”
Já Hernandes acredita que o teto precisa ser revisto, pois desconsidera uma série de fatores. Um deles é que a maior parte dos crimes nos quais as defesas pedem a aplicação do princípio da insignificância é praticada contra pessoas jurídicas, e não físicas — mercados, farmácias, restaurantes etc. Isso fragiliza o uso de um percentual baseado no salário mínimo.
Em sua tese de doutorado defendida em 2025, na qual analisou 198 acórdãos das turmas do STF entre 2015 e 2024, além de 163 decisões do TJ-BA entre 2022 e 2024, a advogada constatou que 66% dos casos dizia respeito a furtos praticados contra estabelecimentos.
O parâmetro dos 10% também ignora a análise do patrimônio da vítima. Segundo Hernandes, um fato insignificante para uma vítima pode não ser insignificante para outra. Assim, o percentual se torna “extremamente limitante”.
O Código Penal prevê o furto privilegiado, para casos de pequeno valor. A jurisprudência entende que isso vale para furtos de até um salário mínimo, e a criminalista vê um intervalo muito grande entre o valor tido como insignificante e o valor estabelecido como pequeno.
Por fim, o teto não leva em conta a restituição do bem para a vítima, que é muito frequente e quase sempre integral — até porque a maioria dos processos por furto tem início devido a uma prisão em flagrante. Em seu doutorado, a advogada identificou que a restituição total ou parcial ocorre em quase 95% dos casos.
Pierpaolo Bottini destaca outro fator: há um “grande desequilíbrio” entre o teto de 10% do salário mínimo e o valor reconhecido como insignificante para se afastar a punição nos crimes tributários, que é de R$ 20 mil.
Hernandes lembra que, nesses casos, a ação penal é extinta se o réu pagar o tributo a qualquer tempo (mesmo depois de uma sentença). Mas a restituição de bens furtados não traz o mesmo efeito. Para ela, é necessário “dar o mesmo tratamento e estender a mesma lógica para os crimes patrimoniais não violentos”.
Estímulo à criminalidade?
Não é incomum encontrar acórdãos nos quais os magistrados afirmam que a aplicação da insignificância incentiva a prática de outros crimes. Bottini discorda: “O princípio da insignificância, quando aplicado dentro de critérios, não incentiva a prática de delitos, até porque a própria jurisprudência dos tribunais superiores afasta a aplicação no caso de reiteração”.
Fagundes também não vê sentido nesse fundamento, até pela falta de comprovação: “Os estudos que já foram feitos sobre a capacidade da lei penal de impedir comportamentos por conta do medo da sanção ou da sua aplicação mostram que isso nunca foi demonstrado empiricamente”, aponta. “Isso é um verniz para não aplicar o instituto nas situações em que o magistrado acredita que não é cabível, por um julgamento pessoal.”
Camila Hernandes reforça que “nunca se demonstrou, por dados, que a intervenção penal é capaz de prevenir novas condutas”. Ela classifica tal crença como “ilusória”.
A advogada diz que o Direito Penal deve ser aplicado apenas de maneira excepcional, pois afeta da forma mais grave possível os direitos das pessoas envolvidas. Por isso, condutas insignificantes devem ser afastadas do Direito Penal.
Ela ainda ressalta que, quando a insignificância é aplicada, a conduta não se torna lícita ou autorizada, pois continua proibida em outras esferas. O tribunal apenas reconhece que aquela conduta “não tem o grau de relevância necessário para merecer a intervenção do Direito Penal”.
Mas o furto não é ilícito apenas para o Direito Penal e ainda pode gerar consequências não criminais. A conduta de subtrair um bem de outra pessoa também é ilícita para o Direito Civil e pode justificar uma indenização. Da mesma forma, é ilícita para o Direito do Trabalho e pode gerar uma demissão por justa causa ou rescisão de contrato.
Por José Higídio – repórter da revista Consultor Jurídico
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-27 15:17:372026-10-27 15:17:37Sem parâmetros claros, Poder Judiciário resiste ao princípio da insignificância
Desde 2023, quando foi sancionada a lei que cria o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o Brasil tem três feriados nacionais no calendário de novembro. Em 2026, eles são comemorados nas seguintes datas:
2 de novembro (segunda-feira): Dia de Finados
15 de novembro (domingo): Proclamação da República
20 de novembro (sexta-feira): Dia Nacional da Consciência Negra
Dia de Finados
Comemoração de seguidores da Igreja Católica e cristãos de outras tradições, que também é conhecida como Dia dos Mortos. É celebrada como feriado no Brasil de acordo com a Lei Nº 10.607 de 19 de dezembro de 2002.
Proclamação da República
A Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca saiu de sua casa no centro do Rio de Janeiro, próximo à Central do Brasil, para proclamar a República acompanhado por uma tropa de cerca de mil militares. É comemorado conforme Lei Nº 662, de 6 de abril de 1949. Marca a data da promulgação do Decreto 1 de 15 de novembro de 1889, que foi assinado por Deodoro da Fonseca.
Dia da Consciência Negra
Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da Consciência Negra – Tomaz Silva/Agência Brasil
A data de 20 Novembro remete à morte do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, assassinado em 1695. O local foi um dos maiores quilombos do Brasil durante o período colonial, símbolo de resistência contra a escravização negra no país. Antes de ser feriado nacional, a data era oficial apenas em alguns estados, como Rio de Janeiro, Alagoas e São Paulo – e em mais de 1,2 mil cidades por meio de leis municipais e estaduais.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-27 14:52:542026-10-27 14:52:54Zumbi, Finados e Proclamação: confira feriados nacionais de novembro
Um voto-vista do ministro Francisco Falcão vai definir se os advogados de uma empresa podem ser remunerados em R$ 4 mil pela atuação que levou à extinção de uma execução fiscal de R$ 84,5 milhões, atingida pela prescrição intercorrente.
Ministro Francisco Falcão vai desempatar caso sobre honorários por execução fiscal extinta
O julgamento na 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça registrou empate até o momento. Metade do colegiado julga que o valor deve ser majorado, enquanto o resto entende que deve permanecer no patamar fixado pelas instâncias ordinárias.
O caso tem peculiaridades importantes. A execução fiscal em questão foi ajuizada pela Fazenda Nacional em 1996. A fixação da verba honorária, portanto, segue as regras do Código de Processo Civil de 1973.
Essa lei previa no artigo 20, parágrafos 3º e 4º, que nas causas em que for vencida a Fazenda Pública e nas execuções, embargadas ou não, os honorários advocatícios seriam fixados mediante apreciação equitativa.
Ou seja, o juiz pode escolher livremente o valor da verba, a partir de parâmetros, mas sem conexão com o valor da causa debatida. A Corte Especial do STJ já decidiu que, nesses casos, os honorários só pode ficar abaixo de 1% de maneira justificada.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-26 12:01:172026-10-26 12:01:17STJ julga se execução de R$ 84 milhões resulta em honorários de R$ 4 mil
A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob o rito da relevância da questão federal infraconstitucional, estabeleceu critérios para determinar a data de referência do valor das indenizações por desapropriação de imóveis. As teses fixam limites de tempo para a avaliação judicial de acordo com a modalidade de desapropriação e preveem ajustes quando o poder público for responsável pela demora na realização da perícia.
26/10/2026
As teses estabelecidas foram as seguintes:
a) Nas desapropriações em geral, a contemporaneidade entre o preço e o valor indenizatório é definida pelo momento básico de sua aferição técnica, em regra correspondente ao preço de mercado do bem quando da realização da perícia judicial.
b) Nas desapropriações por utilidade pública ou interesse social, o momento básico não pode ser superior a um ano desde a propositura da ação judicial.
c) Nas desapropriações para fins de reforma agrária, o momento básico não pode exceder 90 dias desde a propositura da ação judicial.
d) Nas indenizações por desapropriação indireta, o momento básico corresponde à data do apossamento administrativo. A perícia deve reconstituir o preço de mercado do bem nessa data, sem prejuízo da correção monetária e dos juros compensatórios na forma da lei.
e) Quando o expropriante der causa à demora na realização da primeira perícia, por fato a ele imputável e reconhecido em decisão fundamentada, o limite temporal das teses “b” e “c” é acrescido apenas do período de atraso que lhe for atribuível. A demora imputável ao expropriado, ao serviço judiciário ou a terceiro não afasta nem dilata o limite.
f) As perícias realizadas após o prazo estipulado devem reportar-se ao preço de mercado do momento básico limite, mediante técnicas disponíveis no campo científico.
g) Em qualquer situação, as variações de preço decorrentes da própria ação estatal devem ser identificadas em separado pelo perito e descontadas do valor indenizatório fixado em juízo.
h) As teses incidem nos casos com perícias determinadas a partir da publicação deste acórdão, isto é, com peritos nomeados a partir desse momento.
A Primeira Seção modulou os efeitos do julgamento para que as teses incidam sobre os casos em que a perícia seja determinada a partir da publicação do acórdão, independentemente de recursos ou de trânsito em julgado nos autos.
O caso foi inicialmente submetido ao rito dos recursos repetitivos (Tema 1.432), para definir o conceito de contemporaneidade da avaliação na apuração do preço de mercado do bem expropriado, tanto nas desapropriações diretas quanto nas indiretas. Ao examinar a questão, porém, o colegiado decidiu firmar as teses vinculantes sob o regime da relevância da questão federal, com fundamento no artigo 9º, parágrafo único, da Emenda Regimental 55/2026.
Conforme o normativo, recursos repetitivos já afetados e ainda pendentes de julgamento passarão a ser considerados, em regra, como tendo a relevância da questão federal reconhecida, dispensando nova análise desse requisito e permitindo o prosseguimento dos julgamentos.
CNJ registra mais de 90 mil processos sobre desapropriações
O ministro Afrânio Vilela, relator, explicou que a controvérsia tem origem na demora histórica da legislação em incorporar a correção monetária, adotada no ordenamento jurídico apenas na década de 1970. Até então, detalhou, a atualização do valor dos imóveis desapropriados buscava compensar a inflação com base no conceito de preço justo – princípio que, segundo o ministro, deve proteger tanto o proprietário quanto o poder público, vedando-se o enriquecimento sem causa das partes.
Relator do repetitivo, ministro Afrânio Vilela.
Ao abordar a importância do tema em discussão, o relator citou dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que indicam a existência de mais de 90 mil processos no Brasil envolvendo desapropriações em geral (ou seja, não só para fins fundiários), com 75 mil desses casos em andamento na Justiça estadual.
“O tempo médio desses processos era de cerca de seis anos (os alusivos à reforma agrária demoram algo mais e se concentram na Justiça Federal). Em 2025, o volume de julgamentos dessas ações foi de cerca de 25 mil processos”, ressaltou o ministro.
Critérios legais buscam equilibrar interesses do proprietário e do poder público
Afrânio Vilela destacou que os artigos 26 do Decreto-Lei 3.365/1941 e 12, parágrafo 2º, da Lei Complementar 76/1993 adotam a avaliação como referência para definir o valor da indenização. Para conciliar a duração dos processos com a justa reparação, ele afirmou que as teses fixadas estabelecem como limite para a avaliação um ano após o ajuizamento da ação nas desapropriações por utilidade pública ou interesse social e 90 dias nas destinadas à reforma agrária. Se a perícia ocorrer depois desses prazos, o relator apontou que deverá ser considerado o valor de mercado correspondente ao limite previsto.
Para o ministro, o proprietário não pode ser prejudicado por medidas arbitrárias do Estado, mas o poder público também não deve arcar com a valorização do imóvel provocada pela própria desapropriação. O relator informou que a demora no processo não pode gerar vantagem indevida ao expropriado.
Ainda de acordo com Afrânio Vilela, no caso de valorização da região em razão de obra pública, a perícia realizada após essas melhorias não pode incorporar a valorização ao preço do imóvel, evitando que o particular aposte na especulação imobiliária para obter vantagens que não teria com a simples venda no mercado de bem que foi alcançado pelo Estado.
“Assim, se a perícia for necessária após longo decurso de tempo, essa valorização decorrente da própria ação estatal não pode prejudicar a si mesma. É preciso e adequado que o preço assim encontrado reflita aquele que o proprietário obteria no mercado à época do negócio, de modo a substituir seu bem, obtido por força pelo Estado em razão de finalidades públicas, sociais e coletivas”, esclareceu o ministro.
Embora tenha fixado as teses da relevância na sessão realizada no dia 14 de outubro, a Primeira Seção ainda vai analisar os casos concretos dos recursos que deram origem ao precedente qualificado. O colegiado volta a se reunir no dia 11 de novembro.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-26 11:40:512026-10-26 11:40:51Primeira Seção fixa critérios para valor de indenização em desapropriações; colegiado modula efeitos
O Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo declarou a constitucionalidade da Lei nº 18.183/2025, do Estado de São Paulo, que determina a obrigatoriedade de instalação de salas de regulação sensorial destinadas a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e neuroatípicas em shoppings centers. A decisão foi unânime.
Acessibilidade ampla e dignidade da pessoa humana.
A ação direta de inconstitucionalidade foi ajuizada pela Associação Brasileira de Shopping Centers, sob a alegação de usurpação da competência privativa da União para legislar sobre direito civil e direito do trabalho, além de afronta ao direito de propriedade e aos princípios da livre iniciativa e da livre concorrência.
Em seu voto, o relator, desembargador Campos Mello, destacou entendimento do Supremo Tribunal Federal de que medidas dessa natureza dão efetividade aos mandamentos da igualdade material, da acessibilidade ampla e da dignidade da pessoa humana, sem ferir o pacto federativo, a livre iniciativa ou a função social da propriedade. Ressaltou, ainda, que a lei não invade a competência privativa da União, mas se consubstancia como “instrumento legítimo de concretização dos direitos fundamentais e de proteção e integração social das pessoas com deficiência, nos limites autorizados pelo artigo 24, inciso XIV, da Constituição da República”. “Com efeito, a norma combatida não versa sobre direito civil material, pois não disciplina formas de aquisição ou o regime jurídico da propriedade, nem sobre direito do trabalho, porquanto não regula jornada, salário ou vínculos empregatícios. Encerra, ao revés, genuína medida de acessibilidade, inserida no legítimo exercício do poder de polícia administrativa e destinada à concretização de direitos fundamentais”, escreveu.
O magistrado apontou, ainda, que a legislação está em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, do Estatuto da Pessoa com Deficiência e da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
https://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.png00Gelcy Buenohttps://murray.adv.br/wp-content/uploads/2026/02/logo-300x65.pngGelcy Bueno2026-10-26 11:11:412026-10-26 11:11:41OE declara constitucional lei que prevê salas de regulação sensorial em shoppings